Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Janeiro 30 2010

É numa ordem aleatóra que as coisas se avolumam na cabeceira da minha cama. Folhas de cheque rasuradas, extratos bancários, cartas de amor (e de ódio também), correspondência comercial, anúncios de quase tudo que se pode anunciar, cartões de visita panfletos de cursos, planos telefônicos, lojas diversas, festival disso e daquilo, convites de casamentos, recortes de jornal, folderznho de cigana jurando trazer meu amor de volta em 24 horas. Tempo récorde.

Na cabeceira da minha cama, empilhado ao lado de um abajur do Pikachu que infelizmente eu não tenho, estão algumas fotos rasgadas, outras rabiscadas, outras escritas com legendas bem-humoradas, como tudo o que resta a um homem que só quer um pouco de tudo e carrega na alma uma porção de todo o nada que existe por aí. Ao lado da minha cama estão as capas de discos antigos, dos engenheiros, que comprei num sebo, coexistindo numa relação quase pacífica com alguns livros antigos que também vieram de um sebo. "Letras do jardim", eu acho. Foi lá que eu passei duas horas conversando e trocando fábulas sobre as músicas do André Abujanra.

Na cabecera da minha cama tem um abajur que não existe, mas está lá.

E quando ela vem me visitar (ela não tem nome nem é a mesma pessoa) fica olhando a luz do abajur se projetar magicamente no teto esmaltado de amarelo, sentndo o ventilador girar molengamente, ameaçando despencar, como quase tudo nessa vida, sob a custódia exortadora de um Humberto Gessinger que meio que sorri na capa do disco.

Existe isso e existe o que não está lá, na cabeceira da minha cama. Meu quarto tende a ser escuro. Só clareia um pouco quando ligo o abajur.

É aqui que eu me sento (me deito, me rolo, me jogo) para escrever, para ler, para tocar violão, para cantar baixinho as melodas que faço na hora, as letras que invento, as rimas que faço.

Só não consegui ainda, eu acho, rimar "amor" com porra nenhuma.

Fonética é fácil, quero ver é achar coisa parecida. Pra mim, rimar não é termnar igual. Para mim as coisas rimam por afinidades, porque combinam.

Logo, sorvete rima com beijo, sol rima com óculos escuros e Lua rima com a Bia. Você aí, preste atenção nisso: Regras são excessão, nunca o contrário.

Tô com puta saudade de assistir filme legendado juntos, comer algum lanche pouco nutritivo, ouvir música no mesmo MP3, puxando o fone da orelha da garota toda vez que viro o pescoço. Tô com saudade de dividir um pote de sorvete e falar mal do cinema contemporâneo, discutir Amelie Poulan tomando uma latinha de coca ou algum drink absurdo num boteco cult qualquer, só pelo deleite do ato, evitando compromissos imediatos, porque estragar a nossa vida é um direito inalienável pertencente a todos os audaciosos como nós. E diremos que também gostamos do cheiro de Napalm pela manhã.

Não, não é de você que estou com saudade.

Estou com saudade é de alguém nunca esteve comigo num jantar à luz de vagalumes, mastigando em bocadas famintas pedaços gulosos da lua.

Essa saudade é de alguém que ainda não conheci, ou se já conheci, ainda não fomos devidamente apresentados.

Eu criei uma personagem para um filme. Ela se chama Bia. Bia é sensível ao charme das coisas simples da vida.

E sei que a Bia, tal qual como a criei, é impossível.

Inverossímel, até.

MAs já dá uma idéia da saudade que sinto. É como citarei na discussão sobre Amelie Poulain que ainda vou ter com alguém que ainda irei conhecer:

 

_E a minha desordem? Quem vai pôr em ordem??

 

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 13:46

eu prefiro o abajur do Squirtle.
marielle a 30 de Janeiro de 2010 às 20:38

Eu gosto de Amelie Poulain. Se quiser conversar.
Bárbara a 31 de Janeiro de 2010 às 22:47

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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