Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Dezembro 22 2009

Eu assiti ontem à noite o filme "Em Busca da felicidade", com Will Smith, dirigido por Gabriele Muccino. Diretor italiano que é homem, apesar do nome feminino.

Não quero falar sobre o filme. O filme me fez chorar. Mas após assisti-lo pensei em algumas coisas. Coisas sérias:

 

No boteco, no barzinho, na festinha, em qualquer lugar, você encontrará um casal. Juntos ou perto um do outro, dançando, bebendo cerveja, cachaça, jogando baralho, fazendo um churrasco, escutando Odair José. Cantando "I Just Called to Say I Love You", do Stevie Wonder, em embromation, no videokê.
Ela pode ter uns 140 kg, ter um cabelo que parece uma estopa feita com restos de espuma de um colchão velho e amarelo. Os lábios com batom vermelho-fogo, as unhas rosa-choque, calçando uma sandália havaiana verde e gasta, e com um pedaço faltando que deixa as joanetes de fora.
Ele, com 1,55 m de altura, sem os dentes, dos caninos pra trás, bigode tipo escova de engraxate. A testa lisa que vai até a nuca, com uma camiseta de deputado estadual furada e cortadas as mangas, pra se fazer de regata. Seu suor é inflamável.
No meio de uma festa de aniversário, da reunião de domingo da família, na festa junina da escola, você verá os filhos do casal, os três, correndo pra lá e pra cá, gritando, sem rumo, igual quando você arrasta o armário do porão e saem 25 ratos de trás.
Um toma o doce do outro, um corre atrás do outro, um xinga o outro de "filho-da-puta", a mãe xinga eles de "praga", o pai gruda um deles pela orelha e senta uma palmada na bunda, chacoalha e joga o filho pro lado. O pivete quase cai em cima da churrasqueira ou barraca de quentão, rasga o joelho no chão e fica chorando e berrando, enquanto limpa com os dedos o nariz cheio de catarro verde-musgo líquido, na camiseta branco cor-de-terra.
E, dia sim dia não, os pais se catracam, depois de assistirem ao Programa do Ratinho, com um cd pirata do Wando, de fundo.
E os dois abdômens proeminentes se fundem, os suores se misturam, os pentelhos se engancham. Os dentes que sobram em um completam na boca do outro, igual à última camada de elétrons quando dois elementos químicos se unem, numa ligação iônica, pra formar uma substância composta e perfeita.
E assim vai, até todo o sempre. Lembrando que, depois dos 45 anos, sempre acompanhado de uma batida de amendoim com catuaba.

E eu, que em breve estarei formado, bilingüe, cheio de cultura, orgulhoso da minha origem, fazendo parte da minoria brasileira que tem acesso à Internet, com um emprego estável e rentável, capaz de resolver equações do 15º grau, saber que a capital da Moldávia é Chisnau, que sei que a mariposa macho sente os feromônios da mariposa fêmea a 14 km de distância, não consigo o que o ser humano mais humilde consegue ser: Feliz. 
 

 

publicado por Felipe Lacerda às 14:17

é sempre mais além
cochise a 24 de Dezembro de 2009 às 16:27

Ô, meu bem. Começa arrancando um siso...
the fazz a 27 de Dezembro de 2009 às 23:29

Felicidade é associado a excesso ou falta?

Às vezes eu fico pensando...

Tenho momentos de alegria, não posso negar, mas felicidade... Continuidade, nunca conheci. Conheço crises de mania e de depressão, mas nunca continuidade de qualquer coisa.

A profundidade nos meus estudos de psicanálise me leva a chegar à conclusão de que literalmente nascemos para morrer. Apenas isso. Uma luta gigantesca entre pulsões distintas entre si e que no final das contas thanatos sempre vence. Já escrevi em vários textos, ensaios, contos, poemas, etc etc que eu acho que a vida é apenas o desvio entre o vazio e o nada.

O que vou fazer desse caminho? O que você vai fazer dele?

Drawin sempre falava que o homem inveja o animal, porque ele não é mortal. Ele não vive como nós, portanto não morre como nós. Pílula azul ou pílula vermelha?

Isso tudo é muito complicado. Mas eu concordo com o Cypher. Ignorance is a bliss. Ignorância quase sempre é associado a felicidade.
Bárbara a 30 de Dezembro de 2009 às 02:50

Haha , mas que comparação mais cretina a dos elétrons. (gostei)
Dizem que esse estado de espírito denominado felicidade é inversamente proporcional ao conhecimento acumulado. O que é uma baita mentira, é tudo uma questão de preocupar-se ou não, pra mim.
Igor a 11 de Janeiro de 2010 às 22:19

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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