Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Dezembro 16 2009

 

Se o tempo permitir, remeterei ao senhor todas as fotos que tirei ao longo desses versos tragicômicos, ainda que me falte tinta ou papel nessa cela de Samsara, nesse abismo existencial que carregamos no lombo ardido. Quando ela parou e me pediu o  isqueiro, risqueio-o com classe e estilo, como se me passasse aos olhos um filme de Scorcese ou algum daqueles comerciais de cigarro. E o cheiro de querosene fez o ar inflamar-se, chamas haviam nos olhos dela. Ela agradeceu com um sorriso, virou-se graciosamente e pô-se a andar com passos decididos e carregados daquela sensualidade de quem sabe a que veio ao mundo. E na curva da esquina, como se as chamas do querosene houvessem de fato se espalhado pela rua, num flsh de luz e fogo fátuo, ela piscou três vezes antes de desaparecer em pleno ar.

Por fim, encontrei-me novamente só. E isso é tudo por ora.

Cheguei em casa quinze para as sete da manhã, e o gato veio se aninhar em minhas pernas pra dar bom dia, ou pedir leite. Moro só e isso me define, são 348 reais de aluguel por um apartamento que me cabe o ego, mas a esperança precisa ficar com as pernas de fora.

Não tenho muita mobília nem teria muitos cômodos para guardá-las, caso as tivesse. O que tenho é uma TV de antena interna que pega três dos cinco canais abertos, um velho rádio à pilha, uma estante de livros e um enorme painel na parede da sala, finamente cobrto por um vidro e cheio de alfinetes espetas, onde dependuram-se de todas as cores, tamanhos e tipos, umas duas ou três centenas de borboletas.  

Dois quartos, cozinha, banheiro, uma área de serviço onde penduro minhas roupas e algumas vezes por semana me detenho para acender um cigarro e tomar um café sozinho, vendo a cidade que de longe parece acenar pra mim. Mas são só as janelas dos outros prédios, e a vida dos visinhos e suas TVs ligadas de madrugada passam longe da vida de verdade e das coisas que busco - tantas! - mas ainda assim tão raras.

O gato é um Persa que encontrei numa praça da cidade e decidi por chamá-lo de Sidharta, embora  "iluminado" não seja uma definição coerente para ilustrar o felino que carrega aquele par de olhos amarelos e tristes.

Às vezes a noite me atropela, e às vezes eu atropelo a noite - mas o que não muda - é o café e o cigarro na varanda, a periferia dos prédios vizinhos, onde o beócio comum se propaga e se estaguina, e a onda de feiura quase me sufoca.

Onde o proeminente contador do apartamento em frente não tirou ainda o paletó do terno, e apenas de cueca e coçando suas partes púdicas derrama molho de fast food na gravata enquanto assiste admirado o fantástico show da vida numa televisão de plasma.

 

Por outro lado, me detive na ilusão de uma perda merecida. Como e quando a vi: 

 

Todos os dias quando acordo, saio do casulo e me deparo com o mundo - essa emulaçao de vida - e quando vejo o mundo pela janela do quarto de hotel, a curva da estrada, a cintura de moça do rio, os passaros barulhentos do outdoor luminoso...sempre me detenho na paisagem e pauso meus passos, que ja nunca foram rapidos mesmo. Gosto de andar ouvindo o som da sola emborrachada  no cascalho e no asfalto, como se minh'alma chorasse a dor do atrito. E no ceu um turbilhao de cores cinzas.

Ela parou e me pediu um cigarro. Depois me pediu fogo. Como ilustra-la aqui, de forma que o leitor entenda, sem precisar me atrever em minuciosas descriçoes que ofenderiam vossa imaginaçao com imagens prontas? Direi apenas que o rosto dela era como um abrigo aos olhos cansados da feiura, e que sua luz ultrapassou o espaço e o tempo, fazendo o pingo de chuva, que de tao denso, se desprende de uma nuvem quilometros acima de nossas cabeças e se precipita em velocidade impossivel rumo ao solo inclemente, e que pela força da sua beleza e existencia, parou como que por magica em pleno ar.

Acendi o cigarro nos labios dela. Ela pediu abrigo no meu guarda-chuva - que mal cabe a mim e meu casaco, mas que sera abrigo tambem para a beleza dela nessa noite de traumas e crises. Discorremos sobre a existencia exterior e chegamos a simples conclusao de que por mais que queiramos voar livres como borboletas rdopiando por ai, somos cada vez amis como lagartas tentando enlouquecidamente se fechar cada vez mais em seu proprio casulo.

E voltando pra casa, embebido  no siencio morbido que corta o quarto quase vazio, esboço lentamente na fumaça da imaginação a dor dilacerada que habita na minha alma de cao entre os caes nessa atavica noite tao nua. Espalhadas pelo chão, lágrimas mortas e esquecidas. Tento esquivar-me das fumaças recheadas de lembranças e caio no abismo dos capítulos que rodam insistentemente pela tela dos meus olhos, como em qualquer curta metragem.

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 18:19

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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