Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Dezembro 04 2009

Eu escrevo roteiros. Isso me qualifica como escritor. E esses roteiros geralmente viram uma produção de vídeo, ou uma HQ, ou um livro. Nesse sentido, "embora escritor de livros", sou mais um "roteirista de coisas". Há uma diferença quase imperceptível.

E essas coisas que roteirizo geralmente viram algo comercial, num sentido literal da palavra, e invariavelmente geram uma cadeia de lucros (lucro para atores, desenhistas, editores, emissoras de tv, merchandise, etc). Enfim, gera dinheiro. Para mim e para terceiros.

Recentemente, estou empenhado de verdade nisso. Gerar lucro. Não como máquina capitalista ou ferramenta sistemática, mas o próprio processo de perpetuação do que faço implica a obtenção de lucro. Get money. A única coisa que faço sem a intenção de ganho monetário é justamente esse blog, dado que me recuso a publicidades, por enquanto.

Mas é só. O que quero refletir aqui é sobre a validade da arte, o que a qualifica (ou define) e se ela se destila na obtenção de lucro. Quero abrir uma discussão aqui: Vejamos alguns pontos que julgo relevante....primeiro, o artista pagar suas contas nesse país onde arte não enche barriga de ninguém. Claro que isso não acontece em alguns países, onde as pessoas tem horas de lazer ao invés de horário de almoço. Não existe no chão verde e amarelo esse incentivo à arte e ao "fazer artístico", o que possibilitaria a você ser um escritor por profissão ao invés de te obrigar a heroicamente escrever no tempo livre, lutar por comida com os porcos e ainda ter que ouvir seu sogro dizer que escritor "é tudo vagabundo". 

Não é só isso. Claro que ninguém é vagabundo só porque é escritor. ou músico, ou equilibrista, bailarino ou pintor. Estamos tratando aqui de uma preconceituação que é obvia e ululante: Se o escritor vagabundo vira o Paulo Coelho, ele deixa de ser um escritor vagabundo. Ou pelo menos vagabundos ricos não são marginalizados.

A arte é uma só. E vou ser até meio pragmático aqui: Ou é arte ou não é. Sem meio termos. Esse conceito e a percepção dele pode até mudar de cultura para cultura, mas mesmo assim continua um conceito radical. Ou é arte ou não é arte.

Em 2007, Cochise César e eu lançamos nossos primeiros livros. Da minha parte, o "Aprendiz de Mosca Morta", da parte dele "O Homem Solitário". Dois livros que hoje são cults. Na ocasião, lançados de forma independente. Nós pegamos o material escrito, fomos à gráfica, orçamos a produção, arrecadamos fundos, tiramos do próprio bolso uma boa parte e lançamos. Não lembro sobre o livro dele, mas o meu foram exatos 30 exemplares. Vendi todos aqueles trinta exemplares quase que todos já ali no lançamento. A nossa iniciativa foi aplaudida de pé por cabeções e cabecinhas do dito underground e super veiculada na mídia alternativa. Todos que parassem para prestar atenção ao cenário independente iriam inadvertidamente ouvir falar da Iniciativa Cultural Espalhando Câncer, organizada por nós dois.

Hoje, dois anos depois, não atuo mais no meio independente enquanto escritor. Existe a negociação com algumas editoras para lançamento nacional de meus textos. O que é excelente coisa. Uma excelente coisa que me coloca como o grande Judas do movimento alternativo. A malhação do loiro começou faz tempo, mas antes que exploda de fato, quero deixar bastante clara minha opinião. Eu não vendi meu coraçõa, meu modo de pensar ou o conteúdo de minha arte. Estou sendo pago para isso. São coisas diferentes.

O "Aprendiz de Mosca Morta" provavelmente jamais será relançado, pela própria imaturidade do livro. Mas o "Por Entre Suas Pernas" vai, e não vai demorar não. Para quem já leu o livro, saiba que nenhuma palavra será alterada, nenhuma passagem do livro. A obra é a mesma. Minha ótica para com a arte só muda por vias evolutivas, quando eu mudo minha ótica sobre o assunto. Isso gera desconforto em alguns críticos, por achar que a grande mídia tem o poder de corromper infalivelmente.

Vejamos: Sou um comunicador. O que disse no começo. Minha intensão é me comunicar com um público cada vez maior, passando minha mensagem, seja qual for ela. Essa mensagem varia de acordo com a obra. Não sou um artista que usa sempre o mesmo tom.

E eu sou um só. Um simples mortal do centro oeste de Minas. Isso significa que nem que eu grite muito e agite muito os braços, meus textos não chegarão objetivamente no país todo, ou no mundo todo. Mesmo com a internet, onde você pode agora estar me lendo da Finlândia, essa comunicação não é objetiva.

Por isso uma editora. Por isso tentar vincular meus vídeos na TV. Por que tenho contas a pagar, porque não consigo atingir esse público todo sem amplificadores bem potentes.

Existe a parte finaceira. Obviamente, hei de ser mais remunerado quanto maior for essa exposição. Naturalmente, quanto mais pessoas lerem um livro, ou quanto maior for a audiência daquele vídeo, maior o lucro. Mas não é essa a finalidade. O que pretendo ressaltar é que o lucro NÃO DESCARACTERIZA  A ARTE e afirmar isso é um PRECONCEITO. Entendo que muita gente produz para lucrar, e faz isso de forma tão eficaz e lucra absurdamente bem.

Só acho meio impensada e até meio infantil o julgamento prévio de uma produção apenas pela publicidade encima dela ou popularidade da mesma. Pensar assim é ser pequeno, é limitar o universo a dois ou três planetas apenas. O caráter intelectual (!!!) de um rooteiro não se emburrece automaticamente só porque vai passar na Globo, ou qualquer outra emissora de TV.

Entendo também que alguns textos são escritos, seja para TV ou literatura, acompanhando tendências, buscando nichos de mercado, etc. Ou seja, são feitos exclusivamente para se aproveitar de um filão e arrancar dele seu lucro imediato. Mas uma obra de arte é sempre uma obra de arte. E o potencial artíistico de alguma coisa não pode ser quantificado pelo quanto ele arrecadou em caixa. Da mesma forma que um chimpanzé pode pintar um quadro surrealista, um gênio pode fazer uma merda tão grande que nem ele mesmo pagaria o ingresso. 

Só estou tentando defender a arte.

Compará-la com o lucro é ridículo.

Existe a indústria e existe o artista. A indústria presta serviço ao artista. É o que acho. E ponto final.

Gostaria de ouvir o que você pensa sobre isso. Deixe sua opinião.    

publicado por Felipe Lacerda às 18:04

Por que não ganhar dinheiro com aquilo que se faz?
Só cuidado, mocinho.
Porque eles acabam influenciando as pessoas que entram lá com as mesmas intenções inocentes. Desvirtuam para conseguir mais lucro, e não com as suas intenções inocentes de pagar as contas e espalhar sua mensagem aos 4 ventos. Eles querem é mandar no mundo, e talvez vão se aproveitar de você.
Cuidado para não virar um cult sem conteúdo só pra vender cada vez mais...
Bárbara a 4 de Dezembro de 2009 às 19:49

Felipe querido. Estou sem crédito no cel então você vai ter q me ligar.
Hoje é véspera de feriado e estou a toa. Amanhã o Lúcio chega e não deve me dar sossego. Se estiver livre, me manda uma msg pela internet, no site da oi (37-8816-6907) marcando hora e lugar. Levo seus DVDs se vc me der tempo de ir buscá-los em casa.

Beijos

PS: a resposta ao seu comentário já foi escrita, vou publicar no blog assim q der.
Bárbara a 7 de Dezembro de 2009 às 14:10

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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