Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Outubro 13 2009

Nas rimas que invento, tento rimar "tu" comigo. Mas num dá, que num sou lá homem de muita engenhosidade intelectual nem de frescuragens açucaradas de mocinha. Sou por demais é matuto, cabreiro, do tipo até meio bruto ás vezes, acostumado a catar touro na unha e derribar mulher no cangote. Me falta sutileza, eu muito sei disso. Mas pra quem nesse mundo danado num falta alguma coisa? Pra mim que falta só isso, até que falta pouco.

Vim lá da Paraíba, duma cidade muito seca e valente que algum engraçadinho desocupado achou por direito chamar de Cabaceiras. Mas num se engrace não, meu velho, que a Paraíba é terra de homem valente e mulher macho. As pendengas nós resolvemos é na pexeira ou no trabuco, que é pra mode menino moço piar miúdo.

Mas a vida dá seus giros e nós nunca saberemos qual a finalidade dessa dança doida. E deu-se que a vontade de nosso senhor me trouxesse até vossa senhoria, pra poder contar minha história pros meus netos e filhos, pra todo mundo que quer saber como é a vida e o jeito de pensar de um homem como eu, talhado pra ter nosso senhor no coração e o capeta nos olhos, pra mode num perder de vista. Então trate logo de escrevinhá aí, doutô, que o que eu num tenho nessa vida é tempo. Já nasci corrido, quase que duma cuspidela só. Quando a parteira me tomou nos braços eu já quase que saí andando. E num é exagero não senhor.

Minha mãe já era véia quando me pariu, e os anjos do senhor a tomaram nos braços logo depois que eu fiz meus quinze anos. Meu pai era homem bravo, que só de olhar já botava os filhos pra dentro. Precisava nem rosnar, era só se achegar na varanda cuspindo o paiero que nóis se atravancava pra dentro do casebre.

Mas era homem bão, de coraçõa maior que os olhos. Nunca teve grandes ambições na vida a num ser estudá a menina mais nova e tornar o mais mirradinho num homem de verdade, sertanejo dos bão, que cata cobra na espora e domina o cavalo num grito só.

A minha irmão, doutô, virou médica e foi pra cidade grande. O mirradinho mais novo era eu, num sabe? Quero que ocê acompanhe direitinho, que quero que ocê escreva tudo nos conformes. Senão a alma do meu pai vai se arrevirá no túmulo e eu num quero encrenca com os morto não senhor. Gente morta é gente morta, e prefiro mil vezes que o sol derreta e que eu enfrente duas dúzia desembestada de boi bravo do que ver na minha frente uma pessoa que já morreu.

Mas como disse, doutor, a vida é uma dancinha esquisita demais da conta, e quando Deus quer que algo aconteça, o sertão pode virar mar que nada muda.

E num é que eu topei com o capeta?

Tava eu trotando no clementino, que é meu amigo, uma montaria das boas, um burrico cinzento e enfezado. Vinha nóis dois pelo sol das 2 horas, trazendo água do poço pra mode meu pai fazer a janta. Faz uns anos isso, e dessa história sobrou só eu, já que meu pai morreu e o burrico também. Então vai escrevinhando aí.

Vinha eu no trote molenga do burrico pelas trilhas de poeira do sertão, quando vi uma mulher pelada perto dum pé de cajú. Eita, mulher que fica pelada por aí mostrando as vergonha num é mulher de respeito não senhor, mas eu me aproximei pra dar um jeito de averiguar a veracidade do que meus olhos estavam vendo, entende? E num é que a rapariga tava era pelada mesmo, em pêlos, branquinha que nem as nuvens, deitada no chão, com a cara mais boa do mundo?

Num sei o que me deu naquele momento, doutô, que uma comichão me perseguiu dos fundilho até as barba do pescoço. Num era só por ver a mulher não, que dessa prática já conheço bem. Não, senhor. Aquela ali era uma rapariga diferenciada, que tinha um encanto nos olhos que fez meu coração perder a sensatez e meu corpo perder a decência. Avancei logo encima dela, que nem um cachorro no cio, uivando feito bicho do mato.

As lendas que eu ouço falam que é o capeta, sabe. Por isso quero que ocê conte essa história pros outros. Pra todo mundo saber do meu ocorrido, que o povo anda dizendo que eu invento as coisa. O que num é verdade, eu afirmo e juro pela alma de meu pai, minha mãe e meu burrico. dizem as lendas dos mais velhos que quando a gente precisa ser testado pela Nossa Senhora, o capeta encontra nóis pra tentar, que nem fez com Cristo no deserto, pera nóis desviar do caminho certo. Minha avó, dona Severina Matias Corrêa de Assunção Botelho e Cruz, mulher sabida das coiasas do outro mundo, disse que o capeta prefere tentar os homens com a forma de uma rapariga carnuda e dissimulada.

Olha, doutô... dissimulada eu num sei o que é não, mas carnuda... carnuda eu sei sim senhor.

Aconteceu que o fato acontecido num durou mais que o demorado pra água secar no balde. Então num durou mais que um quarto de hora, e eu desmaiei feito maricas no sol quente. Caí maduro no chão, igual jaca de vez.

Quando acordei, tava do meu lado essa cabritinha aqui, ó. Lindeza de encher os zóio, né não? Tava lá com a cara mais tristonha do mundo, esses zoião de cachorro sem dono, pedindo pra eu levar pra casa comigo.

Aí eu levei, ué. dei pra ela o nome de Josefa.

Acontece, doutor... que o povo fala. Os linguão lá de Cabaceiras andam dizendo à boca miúda que eu fornico cum minha cabra escondido, que faço as safadeza cum ela como se fosse uma mulher.

Então, doutor... escreve aí que eu num sô nenhum doido não, que minha estória é verdade das mais verdadeiras, juro por minhanossasinhora.

O que acontece é que...

todo dia de noite...

a joseja vem se achegando... daquele jeito tinhoso do capeta...

e eu num resisto, doutô. Num resisto mesmo.

publicado por Felipe Lacerda às 15:50

Oi, oi, oi....
Vai mandar o argumento? Tá no Rio?
Bj
Daisy a 14 de Outubro de 2009 às 22:09

Olá, Felipe. Eu já tinha lido textos do seu blog também... E esse foi muito bom! Você fez lembrar alguns autores que escreviam sobre o nordeste ou até mesmo sobre o interior de Minas. Ah, eu já te conheço! Acho que você não se lembra de mim, mas já te vi na casa do Bira... hehehe... E eu sou de Divinópolis sim.
Eu escrevo pra expor idéias e pensamentos. Não me preocupo muito com a linguagem e regras da escrita... Gosto bastante de ler, só que não tenho tido muito tempo atualmente. Estou lendo "O anticristo", do Nietzsche, pra conhecê-lo um pouco...
Samira a 15 de Outubro de 2009 às 00:25

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
O Autor
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Muito bom o seu post. A poesia é alog que sempre v...
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