Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Outubro 05 2009

Quando nós aprendermos a sutileza do olhar de uma gueixa e desbaratinarmos nosso auto-embuste, cairemos todos num abismo espiral de tédio e sandices recorrentes. Não que isso seja um exagero de fatalidade, ou abstração de coisas realmente simples, mas penso nisso toda vez que acendo um cigarro na cozinha esperando a água do café ferver.

Nascemos já desbloqueados, como um eletroeletrônico que sai da fábrica sem limitações técnicas. Para o bem ou para o mal, somos assim, compatíveis com quase tudo.

A comparação pode até ser meio ridícula, mas ressalta o conteúdo potencialmente bélico de nossas epifanias.

Nossa geração foi uma gestação In Vitro, e nossos pais são uma orgia de espermas e gametas que se agruparam num tubo de ensaio. Não se sabendo mais qual pátria nos pariu, fica essa eterna nostalgia, esse sentimento de coisas incertas, um passado que só conhecemos pelos livros de História e discos de vinil.

Ah... Quem me dera saber mais que meus vinte e poucos anos! Quem me dera pertencer a alguma classificação, mesmo que taxonômica, mas que ao menos nos dê uma noção, ainda que vagamente útil, de unidade e expressão de uma identidade qualquer. Nascemos depois da bomba, só restaram estilhaços. Nascemos depois do parto, a criança já chorando. Assistimos de camarote a implosão dos nossos pais, esses desconhecidos.

Nossa geração pertence a um lote de almas perdidas, nascidas demasiado tarde para assistiir a um show do The Doors onde quer que seja. Nascida entre a lâmina da espada e as ventas do dragão. E estamos - diria condenado? - a vagar o mundo atrás de nós mesmos, derrotando moinhos de ventos, carregando de cada porto só o cinismo deslavado dessa verborrágica existência intrínseca, adjetivando pessoas, definindo lugares, unindo coisas, captando olhares. Entre o medo do fracasso e a vontade esperançosa do sucesso, está nosso esforço inflamável, nosso discuro galopante, nossas bravatas de guerra, nossos fogos de artifício. Para que todos ouçam, e sem excessão, de atentem ao que dizemos, pois é tudo o que temos, tudo o que resta a essa geração que somos, transbordados de sentimentos. 

O desuso do rolex, o tempo que não cabe no relógio. A ampulheta que não marca horas, mas séculos. Tudo isso pelo ritmado bater da bomba cardíca, que corre o sangue pelas veias, propulsando veneno. E bate louco, bate criminosamente, coração mais do que a mente, bate o pé mais do que corpo poderia, gerando sóis e matando estrelas, como a luz de uma fogueira que precisa se manter.

Entendemos que é na clareza da mente que explode a procura de um novo processo, exigindo, não pedindo, o que nos é um direito: PENSAR.

Nossa geração pode não carregar os ideis grandiosos de mudar o mundo. Mas isso é porque nossa epopéia é introjetada, para dentro, além dos limites dos portões do inferno Sartreano, tendo a mais concreta certeza que querer saber de tudo é querer saber demais. 

Apenas nos importamos com os parafusos que nos faltam ainda. Porque sempre esquecemos peças pelo chão. Duvidamos de tudo, numa tentativa de acreditar, talvez, em alguma coisa. Nossa geração não tem mais caráter, só opinião.

E somos especialmente belos assim. Mesmo que a borboleta carregue no seu vôo a efemiridade de sua vida, é isso, e justamente isso, que a faz bela. E nós, da geração dos malditos, pós coca-cola e pré apocalipse, queremos só um lugar para pensar sozinhos, um mundo de livros lidos e uma xícara de café forte. Só isso. Pois estamos fatalmente condenados a nos acotovelar ininterruptamente pelo exarcebo que somos, em densidade e volume, até o fim dos tempos. AMÉM. 

publicado por Felipe Lacerda às 14:27

Direito de pensar, esse que quase ninguém quer exercer... Eu ja disse em algum lugar que pensar faz mal. Quem pensa demais acaba não conseguindo se ajustar num sistema que exige apego demais a coisas sem importância, total desprendimento de questões como justiça, igualdade, fraternidade, um sistema que exige que não sejamos mais humanos, mas herdeiros enferrujados das máquinas...

"Maybe we were so human, bu, if we cry, we will rust". Sábio Marilyn!

Nós somos os estilhaços das bombas. Somos as ruas sujas dis comícios de 1968. E não somos nada mais que cópias pálidas dos nossos pais. Robozinhos do consumismo. Fragmentos da não-humanidade.

Pra que pensar? Pensar dói.
E você sabe disso.
Bárbara a 6 de Outubro de 2009 às 14:34

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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