Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Setembro 23 2009

Nós, escritores, somos bicho-raça-ruim-pra-caralho. Tudo com hífen. Pra quê reformar, pra que? Vamos é simplificar nossas conjugações verbais, vamos deixar nossos tempos em três, como pede a física. Essa salada mista que é o palco onde se declama em português. Pra quê aprender, se é pra desaprender depois? Nós ficamos mesmo muito putos com essas regras que nos obrigam. Custamos a inventar novas frases, novos verbos, desenhamos com batom no espelho frases de efeito que não cabem mais nos dicionários e tratados linguísticos. Simplesmente não me entra na cabeça como pode uma reunião de velhinho determinar como você e eu, jovens desconstrutores e iconoclastas, devemos escrevinhar nossos rabiscos. Nossa caligrafia de gente impetuosa (aquela corrida, jogadinha pra frente, geralmente letra de forma) deve prevalecer para além dos Aurélios dessa nossa vida pífia, que se queimem as bruxas, fogo na Academia, morte aos lactobacilos moribundos que acomodam a bundinha honrosa nas cadeiras daquele tubo de elétrons que é a Academia de Letras. E pensando bem, nós não estaremos mesmo nunca lá. Não quero envelhercer tanto. Aliás, vem à mim a idéia mais absurda de sentar lá de bermuda, abrir o notebook e jogar pac man. 

Quem quer que seja que assina os papéis, deve ser analfabeto. Como podem assassinar meu hífen!

Pois bem, venho aqui fazer esse protesto atrasado para garantir aos cowboys que somos o direito de ir e vir, com acento ou sem acento, circunflexos ou não, crases e desastres, vírgulas e travessão! Essa peneiração idiomática burra é apenas reflexo do quanto não aprendemos ainda a assinar nossos cheques. 

Até o Word (esse vírus megalomaníaco que se acha um software) vem me dizer que meu nome está errado, que Bicalho não é com "lh". Putaqueparéu.

Isso porque mal sabemos votar, o que dirá escrever. Nossas conexões sinápticas devem ser desencapadas, deve dar curto ou algo assim. Afinal, fonética e semântica são assuntos de escola. Assim como educação física e fumar um baseado escondido no banheiro na hora do recreio. E os professores, o que eles estão fazendo que não estão ensinando as criancinhas a ler e escrever?

Vamos culpá-los não porque eles estão ocupados demais revistando a mochila dos alunos em busca de facas, armas, drogas e revistas de mulépelada. A coisa tá dura, tá no osso já. Escola pública está mais para sucursal do inferno ou treinamento intensivo do morro.

Daí é natural que as crianças não aprendam matémática, embora saiam de lá sabendo com quantos paus se faz uma canoa.  

Mas não era isso que eu queria dizer. Queria dizer que os erros de grafia e concordância que aparece por aqui vez ou outra quase sempre, ou é pressa na digitação ou intensão de fazer feio.

Quem quer fazer bonito é treinador de time de várzea. Eu, como disse uma vez aí, prefiro ser o zumbido do pernilongo que o balé da borboleta. Claro que sempre, sempre, SEMPRE recebo e discuto com carinho e atenção, vamos chamar de interesse sincero, todas as críticas que recebo por email, no blog, ou o povo que me vê na rua e dá um peteleco na cabeça "Pow, Felipe, para de dizer no seu blog que você não ama a tal da Mariana!" . Recebo tudo com resignação e cabeça baixinha, p'ra mode aprender direitinho. Até as análises comparativas mais escabrosas ou as divagações interpretativas profundas sobre algum texto que escrevi no banheiro, rascunhando no meu velho caderninho. Aceito, me divirto e APRENDO com quem quer que seja que se dedique a prestar atenção naquilo que fiz com carinho, porque se não fosse com carinho, eu não estaria mais aqui.

Essa nossa profissão de escritor é ingrata. Tem sempre um expert que quer entender a lógica mecânica por trás do processo criativo e elaborativo daquele determinado texto ou raciocínio, como de eu fosse Descartes ou algum maluco neurótico que pense mais coma  cabeça de cima, o que é raro num homem, e não é o meu caso.

Ufa. Os elogios que recebo lambuzam o ego com leite condensado e me jogam na cama. Assim, assim, não pára. E as críticas realmente destrutivas a gente vai relevando e alimentando os  motores com elas. Um cara (poeta divinpolitano) que vivia pentelhando meus textos, por serem pornográficos demais, por serem lascivos e sacanas, por desrespeitarem quase sempre a suprasuma sagrada determinação ortografica, por serem jovens demais até... esse mesmo cara esbarrou comigo ali no Café com Creme, quase o único cappuccino realmente decente da cidade - e me disse ao sentar-se na mesa comigo:

_Devo admitir, cara. O Espalhando Câncer está dando de mil no do ******* - e vamos omitir aqui o elemento a quem fui comparado para poupar-nos de desgostos futuros, mas nota-se que é um eloquente escritor da cidade. A questão nem é a comparação feita, que é pífia e se me permite, até infundada. A questão é esse poeta, que tanto me criticou, assumir para mim que meu texto está progredindo. E progredir, senhores e senhoritas, é o motor da coisa.

Animado e contra a maré dos beócios que se avalancham para o futuro da humanidade - um abismo - eu sigo um caminho mais apropriado aos pássaros: O Ar.

E como bem disse a Mariana, garota que segundo eu mesmo, não amo:

Somos dois passarinhos.

E somos.

Só fiquei um pouco indignado pela Editora Livro Pronto ter aceitado a publicação do POR ENTRE SUAS PERNAS mas ter me sugerido uma correção ortográfica para se adequar às novas normas da língua. Disse até que seria por conta da própria edição, não teria custo para mim, me mandariam a versão revisada para aprovação prévia, etc.

Mas putamerda, né? Não podemos nem escrever mais aqueles palavrões legais com hífen.

Vamos ficar só no papai e mamãe agora.

Como diz meu amigo e parceiro de sinuca (e playstation, só não fala que eu revelei aqui que aquele respeitável contador fica jogando videogame com os amigos)  Paulo Mendonça:

"Como é que eu vou ser mau-pra-caralho agora?"

publicado por Felipe Lacerda às 19:38

Por que você não faz que nem o José Saramago?
Todos os livros dele publicados no Brasil usam a ortografia de Portugal, por exigência dele.
Bárbara a 24 de Setembro de 2009 às 14:07

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
O Autor
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