Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Setembro 21 2009

Ela virou o copo num único gole carregado de coragem, e sentiu o vinho descer meio esquisito pela garganta. Acostumada ao leite com chocolate, seu estômago não vai processar bem esse fermentado dos deuses, coisa que só agora veio a conhecer, por convite de Raphaela. Vamos ser francos aqui, não é mesmo? Ela sempre quis provar isso. Quis do universo expandir-se. Não era mesmo?

Além do quê, era ela formada por esses dois algo desconexo, essa parte que não sabe. Ela só sabe que é fruto dessas duas coisas que vem observando desde sempre, embora não esteja em condições de precisar exatamente quais sejam.

Caberia aqui uma explicação que valide esse momento, não deixando-o no surrealismo puro e simples, além das interpretações vazias. A explicação evitada é justamente por não agradar a ela. Ela bebe mais um pouco. Raphaela sorri maternalmente e a envolve com os braços. Os seis da amiga tocam suas costas nuas. Era isso. Seu remédio não tinha bula. Não tinha receita, só contra-indicações. Mas no seu universo, sabia ela, só a solidão não tinha cura.

 

Ontem mamãe entrou no banheiro intempestivamente, soltando fogo pelas ventas. Ela deve ter ouvido os barulhos do celular, não foi? Mas ela não estava em casa. Tinha que chegar logo agora?  Entrou berrando e a flagrou atrás do box, naquele pecado que não era pecado, era só uma forma sincera de dizer que não concordava com uma ou outra da demasiadamente extensa cadeia de regras.

Se fosse um casal, talvez o choque seria menos. Se a pegasse na cama com Marquinhos, seria menos doído? Mas era um vídeo no celular, era só a solidão, eram duas meninas se beijando. Era só uma parte que ela não tinha.

Lésbica. Foi o que mamãe disse. Sapatão.

Era só a solidão, era só um beijo, era só uma parte que não tinha.

Minha filha, uma vergonha, 17 anos, sapatão.

 

Raphaela beijou sua nuca de leve, só pra causar um arrepio nos pelinhos da nuca e das pernas, que formigavam bastante sentindo aquela sensação estranha percorrer seu corpo. era mais álcool que tesão.

 

Saiu correndo pela rua, vestindo apenas um jeans velho que foi o primeiro que encontrou. As pessoas do mundo não fazem o que sentem vontade de fazer. Elas nem gozam com o que lhes dão prazer. Gozam com o que é afrodisíaco padrão.

Ela não é lésbica. Só tem 17 anos e ainda tem muito o que experimentar. Não é.  Como assim, se é só prazer? Se é só pele, só toques, só solidão?  Carregou na mochila algumas outras roupas e correu. Para onde não importa no momento. Mamãe ficou gritando na porta algumas coisas que a cebeça da garota estava cinza demais para entender. 

Chocou-se com a ruiva na esquina, uma garota que vinha carregando no olhar um calibre maior que o seu. As duas giraram e caíram sentadas. Se desculparam. Ficaram em silêncio contrangedor, como se as duas soubessem da mesma coisa e não quiseram falar. Era preciso quem sabe aproveitar as cada vez mais raras oportunidades que temos de conhecer melhor as pessoas. Seja numa festa, seja num bar. Ou seja ainda num esbarrão de uma esquina qualquer, numa rua qualquer, onde qualquer um poderia estar.

A ruiva perguntou porque ela parece tão assustada. Sem se importar com nada mais, disse a verdade. E a verdade era essa mesmo, a que não existe bulas para seu rem´´edio nem manual de instruções. E se não sabemos do que o amor é feito, seria muita pretensão nossa achar que seríamos capazes de fazê-lo.

Mas podemos, sim, podemos, chegar muito perto.

 

 

Mais uma vez, na volta para casa, demorou-se na frente da loja, imaginando-se naquele vestido. Aquele decote ia mostrar seus peitinhos e sua magreza. Mas poderiam ser feitos alguns ajustes. Torná-lo mais fino em seu corpo, ficaria assim, mais firme no busto e na cintura.

É. Está decidido. E fez isso assim que voltou da escola na manhã seguinte, trazendo na mochila, meio escondido, meio à mostra, o vibrador que tinha escolhido.

Mamãe a aceitou de volta. Preveniu que o mundop é bem mais sujo e que nele não cabem nossos sentimentos mais bonitos.

Raphaela era seu nome, ou ao menos foi o que ela disse naquele momento em que a convidou para tomar um suco e acalmar um pouco os ânimos, depois da trombada.

Ela não tinha para onde ir, e Raphaela não tinha quem fosse com ela. A vida é assim.

Como ela disse, uma parte que não tinha. Como esse pedaço que ela observa desde sempre dentro de si. E o coração da gente cabe mais coisas do que gostaríamos de deixar por lá. Sempre foi assim.

Um universo feito de coisas comuns. Coisas de pele.

A primeira experiência sexual daquela garota foi com uma outra garota, e isso a fez feliz.

Porque não dá pra saber a forma de se fazer algo que não sabemos do que é feito.

Feito o amor. E essa foi a primeira de uma série de outras coisas.

Coisas que é melhor contar depois.

publicado por Felipe Lacerda às 17:54

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
O Autor
comentários recentes
Muito bom o seu post. A poesia é alog que sempre v...
Na boa cara, muito pomposo este seu artigo, mas v...
Adoro este blog e já o leio à alguns dias a acompa...
Eu não sei quem sou e você sabe quem é? E se não s...
"A poesia é a música da alma, e, sobretudo, de alm...
deve se orgulha sim você é o OVULOZORD Da turma a ...
Como vc num deu nome aos bois, vou concluir que fo...
Como estabelecido entre o conselho nobre... aqui e...
Aquela do "rédeleibou ou aici" é pior... Vai por m...
http://poecinzas.blogspot.com/2009/09/uma-carta-pa...
pesquisar