Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Setembro 03 2009

Pois não, doutor? O que eu tenho?

Medo do escuro já não é que cresci faz é tempo e os monstros do armário não me amedrontam como antes no apogeu de minha primeira infância

(e hoje temo muito mais as pessoas de coração leviano)

E agora, doutor?

Que remédio há pra descrença, me receite aí um sintético que me convença

um comprimido que me enlouqueça ou expaireça essa vontade louca de explodir as coisas

Me aponte o segredo - É auto-ajuda? Cadê as meninas pulando corda e as bruxinhas de neon? Onde estão os livros da coleção vaga-lume que me ensinaram a ler?

Falaí, doutor, confesse: Sou um caso perdido, né mêss?

Quantas asas preciso ter? Quantas mais devo comer só pra perceber que ninguém nessa terra é comestível e todo mundo é indigesto, que nada sobra de resto, tudo falta, tudo falta?

Não me venha com analgésicos, doutor. Desinteresse não se cura com aspirina.

Ou cura e eu é que num tô sabendo?

Sinto muito pelo suor, doutor. É que o busão veio lotado, e meu perfume é muito barato pra suportar tanta influência. Cada pessoa tem um cheiro, cada voz é um contexto, sabe?

Foi mal aí. Pode desligar o telefone se eu ficar muito abstrato.

Sabe, aqui na terra o lance anda meio down... Eu mesmo fiquei parado no mar escutando as ondas e não inventei nenhuma Bossa Nova. Será porque não entendi que não era pra mim, ou eu é que não sou Tom Jobim?

 Esse Tom tá mal, São jobim. muito mal. É orgasmo. Foi disso que chamei, doutor.

Mas depois veio uma repulsa, num sabe? A guria parecia bem, aquele vazio que deixa o mundo perfeito em sua santa ignorância. Eu queria ser vazio de tão satisfeito, queria ser mais conformista, queria não ser cria  do mal do século (passado, inclusive), queria, só queria, mas fazer o quê se nasci feliz demais nessa vida? Tem cura isso, me diz?  Num tem não, doutor.

Aplica aí um Tristezotrim na veia. Essa véia guerreira não vai se importar com uma picada a mais, vai? Me chamam de viciado. Tem problema não. Meu ópio é a tal doença da poesia.

Incurável, doutor, incurável.

Receite alguma coisa que me retire ou amanse essa alegria doida. Só quero ser igual. Só isso. Ô meu deus, e agora isso é pedir demais? Quero ser normal, andar pelas ruas com medo do bicho humano de pele negra que vem me dar bom dia numa rua deserta. É isso aí.

Que mente mediana a minha que não consegue entender que é preciso ter algum medo nessa vida além de baratas, ora essa?

publicado por Felipe Lacerda às 18:35

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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