Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Setembro 01 2009

Caralho, todas as luzes da casa acesas...!
_
Alô-ôu... Eu agora sou sócio da Cemig, é...?

Gritei abrindo a casa. Eu deixei ela ficar lá em casa o dia todo, não devia ter deixado, agora cheguei do trabalho e encontro minha casa toda acesa. 
Antes de dar início ao meu pequeno streap diário, vem-me à cabeça que só em duas ocasiões a casa fica parecendo terminal rodoviário de cidade do interior: no Ano-novo, dizem que para atrair bons flúidos. A segunda ocasião é quando localiza-se uma barata.
Mas, péra aí...? Cadê a guria...? Ela saiu antes de mim e pediu pra vir direto pra cá!
_Queridaaaaaaaaa...cheguei....!!! Dino da Silva Sauro. Não, não tô tão gordo assim, só ganhei uns quilinhos e...!
Atravesso a sala em direção à cozinha. Ponho o pé no cômodo e é só a luz acesa.
Sinto um estalar vindo de trás. Algo se move entre minhas pernas. Uma sombra que cresce, em formato oval, alongado, como se segurasse na cabeça a antena da TV. Um odor peculiar envolve o ambiente - claro e silencioso. Silêncio quebrado apenas pelo segundo estalar.
Oh, não... Céus...! Viro-me lentamente e, infelizmente, certifico-me da minha sórdida previsão: era, sim, uma barata. Imensa. Alguém já viu uma dessas, tenho certeza. Um misto de monstro dos Power Rangers com Keith Richards.
Lembro da minha mãe - sempre nessas horas, sempre nessas horas. Nenhuma delas passa incólume pelo seu território. Os olhos laser por trás daquelas lentes de óculos, iguais ao da Ultraman, funcionam como um radar. Um belo disfarce.
E, ao menor dos movimentos, plaft! e croc! Não importa, é com qualquer havaianas, de qualquer número, qualquer cor. Mamãe mata qualquer barata. 
Mas, agora a onda é comigo! E a última barata que rolou no fight coma  pessoinha aqui quase me derrotou. Respiro fundo. Me inspiro em Bauer, Jack Bauer. Embora, neste momento, me sinta um personagem do Lost.
Num salto triplo mortal chego à área de serviço. A bomba de inseticida armada. E nem sequer cogitei o fato de barata não ser inseto. Ou é? 

Dane-se. Tão animado quanto um niilista emo, preparo o golpe. Algumas gotas de suor escorrem pelo meu rosto. Ainda lembro de alguns movimentos do Ted Boy Marino, no Telecatch: O taco e a tesoura voadora. Ensaio os dois na cabeça, sem que ela perceba. A sala é o cenário do duelo. Noto que por sua testa também escorre algumas gotas de suor. Se baratas fumassem, iria imaginar uma ponta de charuto babado no canto da boca torta. Só nas tiras do Níquel Náusea, mesmo.
Agora é pra valer.
Agora é cara a cara, ôlho no ôlho, mão no Flit.
Nossa! Que coragem, que clima de faroeste, e eu nem sei se as baratas sugam sangue de humanos. Não, isso não pode estar passando por minha cabeça. Ao primeiro nítido movimentar de patas e Shhhhhhhhhhhhhh...shhhhhhhhh....shhhhhhhhhh.

Um, dois, três tiros certeiros. Ela encolhe e recua e sai lesada como um motorista bêbado e capota e tomba morta.
Num dos cantos da casa toca um Nokia. É, sei que é um Nokia porque aquela musiquinha imbecil é inconfundível. Caminho vitorioso e suado entre uma intensa névoa de Detefon. Um homem é vitorioso e digno quando defende seu lar. E eu defendi. 
Ainda trêmulo, fraco e tremido, procuro pelo Nokia que não é meu. Meu telefone é um paleolítico A50, da Siemens.

Localizo o barulhento. Um nokiazinho vermelho que sei bem de quem é. Dou um Alô!, com ar de vitória e com a voz arrastada, Como se eu morresse de vergonha por estar num filme do Zé Do Caixão. Tem horas que minha vida é um filme B. Imaginei logo a voz dublada do outro lado perguntar "Tudo bem com você?" e eu daqui solto um "Já tive dias melhores...!".

Só imaginação, viagem, mesmo. Era só ela, é claro, ligando para o próprio celular.
- Oi, Loiro! Que bom que você já está aí....

 _E você largou todas as luzes da casa acesa por quê?

_Desculpa, mas foi um alerta.

_Alerta?

_É. Um alerta para quando você chegasse. Estou aqui no supermercado e esqueci o celular aí. O seu tá desligado... Eu sei que você morre de medo... E você nem sabe... Entrou uma barata imensa em casa...
 

publicado por Felipe Lacerda às 13:26

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
O Autor
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deve se orgulha sim você é o OVULOZORD Da turma a ...
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