Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Agosto 11 2009

15 anos. Só quinze anos. Pareceu-me pouco, mas ela se sentiu velha, muito velha naquele vestido. Dava pra ver nos rosto dela, o rosto que deve estar por baixo daqueles quilos e quilos de maquiagem. Acho que os olhos dela eram azuis, mas vendo-a a fabricada desse jeito já não confio em mais nada.

Nem sei o que fui fazer lá. Quero dizer, estava lá para acompanhar Miss Dayer, minha namorada. Não é que eu não goste de festas. Deus sabe que gosto. Mas eu absolutamente DETESTO festas de 15 anos. ODEIO. Não é nada contra a cerimônia nem a importância da data, o problema maior é o circo todo. E é tudo igual, já estive em muitas festas de 15 anos. Ricas, pobres, mais ou menos ricas e mais ou menos pobres. Tudo igualzinho, que nem, que nem.

Festa de 15 anos é assim: 01 debutante maravilhosamente linda e 48 amigas com inveja, sorrindo pra foto, tentando aparecer na filmagem e competindo no vestido.

Mas antes fosse só isso, eu não precisaria me envolver. Mas lembremos que estamos num buffet. Tem garçons andando pra lá e prá cá, sempre muito ocupados. E no entanto, parece que todos eles estão servindo refrigerante. Teorizo aqui que eles são instrúidos na cozinha a racionalizar os comes e distribuir à rodo os bebes. E quem um dia teve a imbecil idéia de servir bebida gaseificada nessas jarras de vidros? Elas chegam no seu copo já sem gás nenhum, e esse segundo copo de Coca está com gosto de alvejante. Não que eu tenha bebido muito alvejante na minha vida.

Mas enfim, tem dois copos de refrigerante na minha mesa e nenhum salgado deus as caras por aqui até agora. E o pior é que TODO mundo nas OUTRAS MESAS parece estar mastigando alguma coisa. O que seria? Só se for o arranjo de flores, porque eu não vi nenhum garçon servir comida.

Bom, tudo bem, pelo menos um dos pinguins trouxe vinho. Agora tenho três copos na mesa e nenhum salgado. Mas vinho é vinho e eles servem direto da garrafa. Esse sacrilégio não cometeram, ao menos.

Tomei exatamente 5 taças daquele vinho branco antes do primeiro salgado se anunciar no horizonte. Na terceira comecei a achar que o garçon estava reabastecendo a garrafa com prosseco ou detergente diluído em sidra cereser. Porém, após fastigante labuta etílica, minha namorada entretida com todas as 456 amigas que apareciam de todos os lados ao mesmo tempo, eis que eu avisto um tímido e temeroso garçon que saía meio cabreiro da cozinha (eu decorei qual era a porta da cozinha. Uma questão de estratégia). Ora, ora! O que seria isso na bandeija do incalto pinguim?

MEU DEUS! Parece ser uma empada!!!

E o pior! Eu não fui o único a ver não! Muitos e muitos namorados desesperados como eu se dirigiram para o pobre e cercado garçon, que tremia com a bandeija no alto da cabeça enquanto rezava alguns padres nossos, acuando-se entre a mesa de taças e o cisne de gelo.

Quando o pobre diabo já havia entregue a vida pra Cristo e pedido perdão pelos próprios pecados, ele é salvo pelo gongo! Muitos outros garçons saíram daquela porta carregando bandeijas de salgados! Aleluia! Alguém lá encima teve compaixão de nós, pobres esfomiados que já ameaçáveamos roer o forro da mesa!

A situação se normalizou, o pobre garçon respira aliviado. Não foi dessa vez.

MAs isso nos trás outra questão à tona: Quem determinou que os salgados de festa de 15 anos tinham que ser todos tão exóticos? Por que não os tradicionais, nutritivos e gordurosos salgadinhos de sempre? As boas e velhas coxinhas, pasteizinhos, empadinhas e aquele toletinho de esterco com farinha que chamam de "quibe"? Onde foi parar a tradição de um povo inteiro??

Indignado e me sentindo um ignorante culinário, ameaço provar um dos quitutes esdrúxulos que o garçon veio nos servir. Por precaução e total desconhecimneto do produto, peguei logo dois de cada.

Fiz uma careta. Minha namorada me cutuca com o cotovelo e fala baixinho pra mim comer fazendo cara de feliz que esses aperitivos são, segundo ela, "chiques". Eh, ela me conhece bem. Minha vontade era atravessar a cidade e pedir um X-Tudo. Mas fiquei, empávido colosso, e comii

POsso desconhecer comidas finas. Posso até não ser um gourmet de calibre. Mas tenha santa paciência, até um comedor de miojo feito eu sabe muito bem que um montinho de ricota enrolada em mussarela não é exatamente a minha idéia de finesse. Um outro exemplar tinha lá uma azeitona preta boando no que parecia ser maionese, ou semên de cabrito, sei lá. Aquilo não era uma experiência gastronômica, era um documentário do Discovery Channel.

Mas por fim, passado todos os traumas, chegou o momento em que todos ali esperávamos. Que "parabéns" o quê! Anunciaram o DJ e baixaram os lasers na pista de dança. A namorada, aquela máquina de mexer quadris (uau!) me arrastou para a pista ao som de Set Me Free. Isso foi legal. Ela e eu dançando, aquela coisa toda.

É, foi mesmo muito legal. MAs é claro que poderia ter sido melhor. Sempre tem aquela tia gorda e bêbada que resolve dançar funk e esquece que está de vestido. Tem sempre aqueles pirralhos, sobrinhos e eticéteras que ficam correndo por debaixo das parnas de todo mundo. Não sei por que, mas a organização desse tipo de evento sempre calcula mal o volume de gelo seco para o espaço da pista de dança, e de repente você está preso no pulmão do Jhon Constantine.

Em resumo, é isso. A parte da boate foi bem legal.

Se bem que o DJ não precisava tocar aquela vresão remix do Abba e BeeGees.

MAs não deve ser mesmo muito fácil animar satisfatoriamente um grupo de adolescentes entre 15 a 18 anos com todos os pais no recinto.

Por falar nisso, eu tenho 22.  Só minha namorada tem 18.

 

Naquele momento, eu soube que estava na hora de ir embora.

publicado por Felipe Lacerda às 20:43

' toletinho de esterco com farinha que chamam de "quibe"'

Meu Deus!
Mariana Martins. a 12 de Agosto de 2009 às 22:29

Ufa!!! ate pra comentar tem burocracia... nomes, url´s, e-mails... emfim... após todo esse processo:

-Quem é mesmo fatalista?!?
Franco---Vulgo Koko a 14 de Agosto de 2009 às 05:03

Esse texto ficou uma delícia. Uma atmosfera muito gostosa mesmo, dei muita risada.
Marcela a 16 de Agosto de 2009 às 04:01

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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