Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Julho 28 2009

Estive ausente entre os presentes daquela festa. Mas enfim, quem repararia num contador de estrelas como eu?

Entrementes, me veio o sorriso dela, indisfarçável por trás do aparelho. Ela estava só, no canto da sala. No meio da sala, todos menos eu e ela.  Mas estávamos de lados opostos.

Ela era feia. Não que minha concepção de beleza seja a única real, a mais real dentre as muitas. Mas ela era feia, na minha concepção de beleza. Não feia do tipo que causa repulsa ao olhar, não feia do tipo vulgar, não feia do tipo que um cara como eu não levaria pra jantar.

Ela só era feia. E sorria pra mim. Achei o sorriso simpático, amistoso, não era sacana e convidativo, era só um sorriso. Um sorriso quase cúmplice, como se enxergasse em mim o que eu era aquela noite. Estávamos no canto da festa, só os dois ausentes. Isso nos tornava cúmplices, eu acho.

Certa vez disse a um amigo que "todas as mulheres feias eram gente também e por isso mereciam ser felizes. Elas só não seriam comigo". De certo modo, redigo isso. Mas pensei, naquele momento de cumplicidade, que eu também não sou assim tão lindo. E detesto autocríticas numa hora dessas.  Mas ela só estava sorrindo. E aquele sorriso me fez enxergar esse algo indizível pra mim. Que eu também não sou lá muito bonito.

Certo, não é auto-estiima baixa. Au countré, mes amis. Mas ela me mostrou, naqueles dentes aparelhados, que o sinal estava fraco de cá também.

Odeio esse tipo de festas. Na verdade, odeio quase todo tipo de festas. Mas nessa eu fui, meio que obrigado. Uma festa no apartamento de um amigo de um amigo e vocês sabem onde esssa história termina. Essa gente da poesia, me perdoem os leitores poetas, é tudo doida. digo pelo mais empírico conhecimento de causa. Tinha um varal de poemas atravessando a sala. Serviam vinho, e mesmo essa sendo a parte boa, o vinho pareceu-me descer complicado demais na ala dos fumantes. Um cinéfilo que se parecia muito com o Woody Allen decidiu entrar numa contenda psico-emocional comigo sobre a natureza sombria ou não dos filmes do Tarantino. Eu defendendo a viisão sombria, ele defendendo a visão plástica. E tinha um outro defendendo as duas coisas, mas ele estava bêbado e não vou relevá-lo aqui.

Alguns recitavam poemas num daqueles microfones de DVD. Parecia uma caixa de abelhas amplificada, mas acho que a idéia era mesmo essa. Por que eu fui nessa festa?

Para promover a produção do meu curta metragem. Nos particulares acabei gostando, mas no geral é aquela coisa de masturbação mental entre tipos intelectuais.

Foi aí que desisti do Tarantino roubei o vinho, indo sentar no sofá, embaixo dos poemas, me ausentando da festa terminantemente.

Foi aí que a vi, só agora a vi.

E estava sorrindo pra mim. Ela que não era má nem estranha, nem chata nem intelectualizada demais. Só era feia.

 

Mas mesmo que não fosse. A questão é que tenho namorada, não sou (mais) desse tipo. Até porque ela nem falou nada comigo, nem chegou em mim nem nada.

Só sorriu, a minha cúmplice feia.

E juro que gostei daquele sorriso!

publicado por Felipe Lacerda às 20:15

Gostei do conto, mas tem partes de verdade nele??? vc ta mesmo produzindo um curta???

Saudades das nossas conversas...

Ah! Também acho poeta tudo louco... rsrrs

Um abraço,
Imcompreendida a 30 de Julho de 2009 às 00:48

E você correspondeu o sorriso da menina né? Olha a cortesia! kkkk
Muito bom o conto!
Mariana Martins a 30 de Julho de 2009 às 05:20

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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