Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Junho 05 2009

Os caras apitam anunciando que as chamas do inferno vão incendiar Copacabana, enquanto o moleque esquálido atravessa uma ponte sentindo a neblina gelada lhe aflingir os ossos. Quando tudo soar bem e já não houver mais inquisitores pelas ruas do Leblon, nossos subversivos cariocas cairão em desgraça. Digo isso por observação tão somente, já que o sonho do carro próprio move universos e tudo o que quero é contemplar o mar mais de perto, sem montanhas entre ele e eu. Não sou e detesto cariocas, generalizando.

Não que eu ame de todo o fato de ser mineiro e gostar mais das coisas intimistas, mas entendo que o mundo é meu, não apenas as terras que deus me deu por pertencentes.

"Nenhum de nós haverá de saltar da Lua ao Sol", disse-me certa vez uma guria de lábios carnudos e cabelos cor de mel, e me levo a pensar novamente em tais palavras de aterrador fatalismo quando o frio me obriga a me abrigar em mim - acalantado refúgio - e acender um cigarro para defumar idéias. Vão queimando, neurônios um a um ao sabor da fumaça. Sei que um observador desatento poderia me culpar por entorpercer-me de nicotina, mas antes isso que o composto de ervas que servem nos jantares da alta cúpula, onde as bailarinas dopadas e as barbies esqueléticas aspiram seu ouro  branco entre um ataque e outro de bulimia.

Entrevômitos, vou andando por minha copacabana imaginária - cercado não de mar, mas de montanhas - e movo a órbita dos astros com a chama bailarina gorda do isqueiro, esse acendedor de sóis.

Já não bebo assim, nem uso drogas como fazia nos idos momentos de poesia descerebrada. Mas eu é que sempre fui doente cá de dentro, dentro de mim.

Eu não tenho medo do escuro nem do frio nem da noite nem da lua nem dos carros passando. Mas fica no chão um fiozinho de óleo do motor, como um ferido que acelera após o tiro, e no caminho do ambulatório, morre de tanto sangrar.

Entre tantas almas, essa loucura urbana de poetas do asfalto, gostar de meninos e meninas é só a frase de efeito de uma música que já não ouço mais porque cresci, e crescer nos faz desamar certas coisas.

Ah, tem pássaros na beirada do rio, pousados nas árvores, dormindo. Embaixo deles, toneladas de peixes mortos.

 

E no fundo do rio brotam sorridentes e podres todos os cadáveres que plantei.

publicado por Felipe Lacerda às 00:44

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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