Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Fevereiro 12 2009

Por favor, leia essa história com bastante atenção:

 

A Escola Municipal Padre João Bruno, popularmente conhecida como CAIC, achou por certo me homenagear com uma singela menção honrosa.

Fiquei maravilhado.

Com tanta gente querendo meu escalpo por aí, uma escola onde estudei há uns trezentos anos atrás têm a delicadeza e a sensibilidade de me prestigiar por algo que a direção soube que eu havia feito.

Em uma bela tarde de sábado me liga a Maria Luíza (que na época me deu aula da falecida matéria de “ciências”) e agora é a diretora da escola. Claro que eu esperava que a Alanis Morissete me ligasse aquela tarde e não imaginaria nunca que a tia Luiza ia me bater um grampo.

_oi?

_Felipe Lacerda?

_hun-run.

_Quem está falando é Maria Luiza.

_Maria Luiza? Seja mais específica, por favor.

_Aquela que fez você assinar ocorrência por ter incluído um palavrão na peça da escola. _Hein?

_Aquela encenação sobre Pitágoras pra aula de matemática. Você inventou de montar uma peça de teatro e convenceu a classe intera a vestir papel crepon colorido. Daí na cena final você grita pra platéia que “a soma dos quadrados dos catetos é igual a porra da hipotenusa”.

Aí eu lembrei.

Foi uma ocorrência assinada com prazer e o orgulho camuflado de todo o corpo docente. Bons Tempos.

Pra encurtar a história: Essa professora, Maria Luiza, leu no jornal sobre os trabalhos no São Bento e na Accom. Trabalho de música e teatro, justamente o TEATRO, que me levou a assinar aquelas advertências na oitava série. Claro que usei a suposta “popularidade” de agente cultural para desenvolver diversos trabalhos de transformação social naquele lugar (São Bento), uma comunidade carente de Divinópolis. Trabalhos de educação familiar, escola e arte, principalmente arte e cultura.

Pois é, gente. Detesto carregar essa bandeira de “Sr. Caridade” e “Voluntário”. Tudo o que fiz foi ser eu mesmo e falar das minhas coisas e fazer tudo do meu jeito. Aí os jornais e jornalecos soltaram fotos e artigos sobre os trabalhos de “caridade” daquele grupo de jovens “voluntários”. Eu sempre me enrolo com essas coisas. São pessoas, não são “carentes”, tudo o que fiz foram apresentações, como faço em qualquer lugar. Mas de repente estava a Luiza me ligando, dizendo que leu os jornais e quase explodiu de orgulho por ter me ensinado sobre o movimento de translação e a tavela priódica (que aliás, NÃO APRENDI).

Quando ela me chamou, eu achei que fosse só uma palestra – afinal, foi pra isso que ela me chamou – uma palestra para a nova geração de alunos do CAIC se espelharem no “aluno problema” que se tornou um “artista problema”, vamos chamar assim.

E eu fui pra lá crente nessa idéia. Não seria minha primeira palestra sobre produção artística. E ela pediu pra que eu levasse os livros. E eu caí feito um patinho. Eu fiz a palestra bonitinho, com o auditório apinhado de moleques e molecas de 15, 16, 17 anos. Não tive problemas para mantê-los em silêncio, por incrível que pareça. Mas depois da palestra, eu ia me despedindo, jogando aquele charme de sempre e aquelas piadinhas ácidas de praxe... Foi quando a Maria Luiza subiu no palco trazendo um violão.

Sua filha (agora com 14 anos – quando a conheci tinha uns 8) veio de sorriso em lábios trazendo um embrulhão muito do suspeito.

Meu coração danou a dançar tango.

A professora que evoluiu pra diretora me estendeu o violão e pediu pra tocar Tela Cinza. Logo Tela Cinza.

Disse que ouviu no show do Festival da Primavera e as alunas iriam adorar me ouvir tocando e cantando.

Tremi. E a filha da professora sorrindo. E as meninas me olhando gulosas. E o povo todo na espectativa. E eu quase explodindo de excitação. Eu faço um SOLl, e a música começa em DÓ.

Erro. As meninas riem, achando linda minha cara de desastrado. Os meninos riem de zuação mesmo.

Paro, rio, finjo que o violão está desafinado. Sempre me saí bem em público, o palco é meu habitat natural. Olho pra todo mundo e me lembro de mim ali naquelas cadeiras, muitos anos atrás. Eu era só um moleque sonhando com um palco. E agora estava no palco, lembrando de mim moleque. E eu sou muito emotivo. 

Se eu olhasse pra platéia enquanto cantava eu ia desabar a chorar. Já tava sentindo aquela bola de pêlo na garganta. Então eu fechei os olhos e comecei o dedilhado daquela música, tão simples e bonita, tão especial pra mim.

Tela Cinza.

“Quando você pinta tinta nessa tela cinza faz a noite fria ficar mais triste ainda...”

Abstraí totalmente do lugar onde estava, mergulhei numa escuridão de vultos e turbilhões, tudo o que eu ouvia era minha voz e o violão naquelas caixas mal equalizadas do auditório, soando como trombetas.

No fim, todo mundo aplaudiu. Acabou e eu nem vi.  Não sei se entenderam a letra ou o que eu queria dizer com “seu olhar me ensina”. Mas quando ia saindo de lá, com o conteúdo do tal embrulhão da garota sorriso (uma carta muito fofa e um diploma simpático de honra ao mérito, ou coisa assim - faltou só uma medalhinha do Vietnã), a professora me puxou pra trás pra me dar carona até o centro.

_Felipe, você devia pensar numa forma de unir a fome da sua música com o poder da sua atuação. Devia pensar numa forma de fazer um espetáculo ainda maior do que os que anda fazendo, unindo a poesia das suas palavras e a melodia da sua voz.

_Eh, M. Luiza... mas pra isso eu preciso encontrar mais uma outra alma doida pra subir num palco comigo.

_Espero que não demore pra encontrar, Felipe Lacerda. Mas olha, filho...Um dia você vai se cansar dessa banda de rock.

 

Isso foi há um ano atrás.

 

Ontem Rafael Louredo estava agitando os braços freneticamente na sala da minha casa quando acabei de propôr a ele o Audacioso Espetáculo da Borboleta Mecânica.

Ele estava dando saltinhos, juro. Tudo bem que Rafael sempre foi um bom ator, mas a reação dele merecia um Oscar – nem no palco vi ele tão entusiasmado assim. Ele vai soprar fogo (até falou o nome técnico disso, mas juro que esqueci). Vai soprar fogo e outras estripulias.

Aceitou sem titubear, por isso eu adoro o Rafael. A mesma empolgação que demonstrou quando saímos da escola de teatro (NEAC) para montar um grupo só nosso, em 2006. Agora faltam só alguns outros detalhes a ser acertados.

Precisamos de quatro músicos tocando. A Borboleta já é uma banda, agora vai virar teatro e poesia. Danny vai tocar bateria. Tem que ser ele na bateria. O cara é meu maior parceiro musical até hoje, fundou a banda comigo. O pessoal da Cida Vianna (Doutores da Alegria) vai ajudar na encenação e maquiagem. O roteiro será escrito por mim e (se acertarmos os termos do Atrito) Amanda Aguiar, que já topou embarcar nessa teatralidade poético-sonora. O que falta?

MAIS GENTE!!!!

MUITO MAIS GENTE!!!

Estou escrevendo isso tudo aqui por dois motivos:

Primeiro, porque quero demonstrar o reavivamento poético que foi proporcionado em minha vida pela poderosa mulher de 15 anos.

E segundo, porque essa tarde, com o maior prazer do universo conhecido, fiz uma ligação para Maria Luiza e disse a ela que em breve, muito em breve, ela ouvirá falar ainda mais de mim e de uma nova-velha trupe chamada Borboleta Mecânica.

 

_Maria Luiza, antes de desligar, só mais uma coisa que queria dizer.

_O quê, Felipe? Pode falar.

_Eu não suporto mais uma banda de rock.

publicado por Felipe Lacerda às 19:22

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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