Felipe Lacerda - o escritor que diz Ni

Maio 15 2008

O dia foi sóbrio, mais três semanas como essa e eu consigo atingir a meta de ficar rico até 2010. Sério. Mas o lance nem é esse. "Que tal um chope?", pergunta a moça sorridente do balcão. "Não bebo em trabalho, traga só o hamburguer", respondo sem tirar os olhos da loira ao lado, sorrindo um sorriso colgate de fazer inveja aos meus amarelados de tabaco. "Mas você não está trabalhando agora, são dez e meia de uma quarta feira", insiste a atendente, tentando me vender o tal chope.

"Nova Serrana inteira é um trabalho para mim".

E é verdade. New Serra é uma grande mina que vou escavar até a última pedra, mas sairei daqui com o que almejo. Meus credores agradecem.

Então tá; chega de falar de trabalho. Voutemos à narrativa. Estava no trailer-boteco-pseudolanchonete eu, a garota com ares de top model que me mostrou (muito bem, por sinal) toda a geografia acidentada da cidade, a loira colgate da mesa ao lado e a atendente que tentava me vender o chope.  Certo, onde estava?

Ah, sim. Recuso o chope mas peço um cigarro. Hollywood. Vermelho. Um cinzeiro e mais maionese. Para o hambuerguer, não os cigarros. Ela traz o lanche e a maionese, mais as fritas da top model, mas não traz minha insinuação fálica preferida.

"Desculpe, não temos hollywood".

"Merda. então pode trazer um Derby vermelho".

Meu pai montou uma retificadora de automóveis. Isso significa muita graxa em meus papeis e significa também que essa semana fumei mais Derbys do que seria sadio fumar uma vida inteira. Sem exageros poéticos dessa vez.

"Desculpe, senhor, mas também não temos Derby. Não vendemos cigarros"

Me levanto e faço menção de sair. Deu um súbito desespero. Mas a Top Model que falei pediu com jeitinho dizendo que depois do lanche tínhamos mais lugares legais da cidade (provavelmente mais uma das 4.351.598 praças da cidade). A loira colgate sorri denovo e me oferece um cigarro que tirou do seu maço.

O hollywood veio brilhando com um coro de anjos celestiais nos dedos delicados da moça, e deve ter sido assim que moisés se sentiu quando recebeu sua missão sagrada.

Acendo e dou uma tragada. Seguro no pulmão. Sopro pra cima.

"Como você consegue? Você não parece do tipo fumante."

"Você também não parece do tipo modelo", penso mas não digo, afinal de contas meu tour pela capital do calçado estava começando e tinhamos muitos pontos turísticos escuros e aconchegantes para visitar.

"Me responda uma coisa, (nome omitido por questões profissionais), NINGUÉM AQUI FUMA? Devo ter encontrado sei lá, dois ou três lugares quevendem hollywoods."

"Não é muito comum aqui. Meu pai fuma Derby, minha mãe também. Acho que todo mundo que conheço aqui fuma Derby".

"Catzo" respondo, e penso que estou no inferno. Posso até ficar rico aqui, mas o Tio Lu vai judiar de mim até o último fio dourado.

"Então as pessoas aqui não tem o hábito de fumar?"

"É mais ou menos isso".

"E elas respiram o que? OXIGÊNIO?!?"

Ela ri. eu não. Nem um pouquinho, e nem foi uma piada.

 

Vou chegar em Divinópolis e comprar pacotes extra-power-grandes de hollywood. Juro.

 

 

publicado por Felipe Lacerda às 23:08

eu li seu livro (em parceria com Paulo Mendonça) e até cheguei a passar no Costa Rangel para ver a "máfia costaniana" que você fala, mas num tive coragem de me apresentar. Cês tavam jogando rpg e tocando violão. De qual quer jeito queria te dar o parabéns pelo livro e queria o e-mail, msn ou orkut do Paulo Mendonça. Pode ser? Queria me corresponder com vocês desde o show que sua banda fez no Parque da Ilha. Eu tava lá. E seus outros livros? Onde consigo?
Abraço.
Sianodel.
Sianodel a 19 de Maio de 2008 às 18:49

Na boa cara, muito pomposo este seu artigo, mas você deveria mesmo é escrever novelas. Em uma novela você pode manipular a realidade e criar a situação perfeita para poder ser irônico, sarcástico e tudo o mais que você gosta. Na vida real isto não cola. Por exemplo, neste artigo você terminou por dizer que, em uma cidade com 80000 habitantes, não tem cigarros a venda. Talvez você queira ser sarcástico com o número anterior, mas antes eu devo te dizer uma coisa: apesar de ser perfeito para suas ironias, uma cidade desse tamanho - mesmo pequena - sem cigarros à venda, meu amigo, não existe. Não precisa ir até Divinópolis, basta ir a um supermercado da cidade. Você está na verdade é estimulando a ironia, o sarcasmo e seja lá mais o que você gosta, só que em qualquer pessoa que leia isso que você escreveu. Bom, ironias a parte, e antes que eu me esqueça, te diria ainda para não escrever "voutemos" nas suas novelas. Abraço
Airton a 31 de Outubro de 2011 às 18:27

Alto, loiro, sarcástco, finamente irônico, ator, escritor, ano 87, à alcool, sére luxo, estofado de couro, rodas de liga leve, direção hidráulica...
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